Mostrar mensagens com a etiqueta À distância. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta À distância. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Rotundas!!! Em que sentido?

Ouvi há uns anos um reputado especialista, numa aula de transportes, dizer que as auto-estradas para o interior, em vez de lá levarem o desenvolvimento, faziam com que as pessoas saíssem mais rapidamente para o litoral. Achei fascinante como, numa curta frase, o catedrático tinha virado o bico ao prego e deitado por terra uma convicção generalizada. Além disso, a ironia do destino dos territórios em processo de despovoamento, processo esse que se vê agravado pelas novas acessibilidades - que durante tanto tempo reclamaram, como forma de gerar desenvolvimento e inverter esta tendência de perda - assombrou-me.

Foi com algum espanto que, numa recente viagem de Odemira para Sines, me deparei com uma série de novas rotundas que desafiaram tudo o que eu achava saber sobre a matéria.
A primeira delas pareceu-me um pouco desviada do eixo da estrada… mas enfim, há contingências compreensíveis, como um sobreiro que não se pode deitar abaixo - pode ter sido isso - pensei. Mas à segunda rotunda nem mexi o guiador, foi vê-la passar à minha esquerda… e aí fez-se luz!!! As rotundas, símbolos do congestionamento automóvel – o que neste país é sinónimo de desenvolvimento – foram feitas à medida de quem viaja para Norte. Recordei imediatamente a frase do professor Viegas e, sem que o conseguisse evitar, imaginei que esta concepção única das rotundas era um presente envenenado das Estradas de Portugal que visava acelerar o despovoamento do concelho.

Depois de muito reflectir confirmei que tudo foi propositado mas, no entanto, abandonei a teoria da conspiração, porque percebi a genialidade por trás desta solução de design heterodoxa, ora vejamos:
  • Quem viaja ao fim-de-semana para Lisboa sai, naturalmente, apressado na sexta à tarde em direcção a Norte e as rotundas, assim, facilitam-lhe o trajecto… o condutor pode até atravessá-las enquanto escreve um sms a avisar os amigos que está a caminho, e nem dar conta que passou por uma rotunda;
  • Já no sentido inverso os citadinos acelerados, que desabam sobre a Zambujeira por alturas do Festival Sudoeste, encontram uma série de obstáculos rodoviários que visam, justamente, abrandá-los, acalmar-lhes o temperamento ao volante e contagiá-los com a saudável serenidade alentejana que muito contribiu para a segurança rodoviária;
  • De uma forma geral, a contenção das invasões sazonais de turistas é, possivelmente, uma das intenções por trás desta concepção genial;
  • Mas o design destas rotundas até considerou os trajectos casa-trabalho, fazendo com que o percurso Odemira-Milfontes (trabalho-casa para a maioria das pessoas) se faça mais depressa e com maior comodidade do que o inverso.
Saber se é correcto chamar-lhes rotundas é uma questão duplamente semântica e topológica. Ou seja, no sentido Norte-Sul são rotundas de facto, já no sentido inverso não o são… o que é muito bem visto - porque se uma coisa tem dois sentidos, e se eles até são contrários, a natureza antagónica da coisa, por deferência à lógica, deverá ser assumida.

Os meus parabéns aos responsáveis por estas rotundas.

PS: Obrigado a "o resto do mundo" pelo estímulo ;)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

A melancolia também se dança

Para os germânicos que conhecí o fado é absolutamente incompreensível.
Até podem gostar das melodias, das harmonias e do som da guitarra portuguesa, mas as letras e os espírito que veiculam... hummm, não percebem.
Diriam - como é possível alguém simpatizar com a tristeza, arriscando a deixar-se caír nela?
Não só não sabem, como têm medo de se deixar embalar pela melancolia. Fogem do fado como os gatos da água.


Na melancolia o português é como peixe na água. E o fado é exorcismo e catarse, como quem escancara as portas do armário, em público, para olhar os esqueletos de frente, numa abordagem de contra-fogo, ou de contra-fado...

E apesar de não ser fado, mas uma balada do Fausto, é a
Rosie quem me exorcisa e transporta ultimamente:

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.

Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada

E o Nada

Deve acabar-se também,

Como todas as coisas.

Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par

Que paga sem falar;

Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.


Dieter Duhm diz que "
Für jede Situation gibt es eine Heilungsmöglichkeit"... eu digo "Ja genau"

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Quanto custa a felicidade?

A felicidade é um bem altamente inflaccionado no Mundo Ocidental e a culpa não é dos especuladores, como no caso do imobiliário. Aqui a culpa é nossa e só nossa... ou melhor, da nossa eterna insatisfação, ampliada por uma grande "falta de Mundo".

A forma tola como perseguimos a felicidade, em metáfora, é assim:
Um caçador de borboletas de rede na mão, entusiasmado, olhos esbugalhados e sorriso patético, persegue uma à esquerda depois outra à direita e ainda uma outra que surgiu por trás duma moita ao fundo quando, passado um bom bocado, não vislumbrando quaisquer borboletas no horizonte, dá por si e não sabe onde está, perdido pede a Deus por mais borboletas.

A verdade é que temos muito medo de não ser felizes ou que a nossa felicidade seja menor que a do vizinho. A esta fuga paranóica ouvi chamarem a "ansiedade do status", essa doença pós-moderna que aflige todos os que não têm nada realmente importante com que se preocupar.

Mas existem remédios, como estes:


Preocupe-se, ou melhor, ocupe-se como puder porque, no combate à pobreza, a pré-ocupação não adianta nada... além disso, a filantropia também traz felicidade. Duvida? Então experimente.

Mais fotos em: Claras em Castelo (e obrigado pela inspiração, Rosa)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

3 coisas que corrompem mais do que o resto:

Há três coisas no Mundo com uma particular capacidade de nos distorcer a percepção, de nós próprios e do que nos rodeia, a saber:

O Poder - diz o ditado que "o Poder corrompe" e dispensa exemplos concretos;

A Fama - nesta área arrisco dar exemplos: da Elsa Raposo ao Joe Berardo, passando pelas celebridades fugazes dos reality shows, you name it;

O Automóvel - pode parecer inusitado, mas eis a prova:



A verosimilhança desta caricatura é absolutamente maravilhosa... e o remate final com a frase "O princípio do prazer", simplesmente, sublime!

É esta distorção da percepção que faz alguns automobilistas vociferarem calúnias ao engarrafamento que têm pela frente e, simultaneamente, aos apressados que lhes buzinam pelas costas, sem nunca se considerarem parte do problema. O que é compreensivel, já que esta pequena sinapse nervosa desencadearia um curto circuito cerebral de tal ordem, que as consequências poderiam ir muito além do aqui previsto, a 1 minuto e 30 segundos do final:



Na forma como manipulamos e, simultaneamente, somos manipulados por estas três "coisas" encontramos essa cruzada ambígua a que chamámos "o processo civilizacional" - a intenção da humanidade de se conduzir a si própria no sentido da racionalização de todas as relações tensionais e na aniquilação do sofrimento produzido por essas tensões. (n'a sociedade primitiva)


Haja saúde


PS: poderia ter incluído o vil metal na lista das coisas que corrompem, mas será ele uma "coisa" em si mesmo, ou apenas um meio de chegar a elas. O fascínio que ele nos exerce está em si, ou nas "coisas" que ele nos permite ter?


sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Há uns dias encontrei na blogosfera esta conversa, entre Francisco José Viegas e Tiago Carvalho, onde não podia deixar de me meter. Para o caso de não aparecer n'A Origem das Espécies, deixo aqui o e-mail que enviei a FJV:


Permitam-me que me junte à vossa conversa e perdoem-me não acompanhar a vossa eloquência.

Uso a bicicleta como meio de transporte, não uso capacete e também não gosto de astronautas. Quanto à lycra uso-a exclusivamente nos desportos aquáticos porque, além de não a achar confortável em terra, associo-a directa e inconscientemente ao desporto hardcore e a transpiração extrema, de tal forma que só de ver alguém vestido de lycra sinto comichões. Há uns meses vim trabalhar para Sines onde fiz uma descoberta aterradora. Descobri então que algumas pessoas desta pequeníssima cidade se fazem deslocar diariamente de carro para todo o lado (por vezes em distâncias inferiores a 400 m). Fiquei ainda mais surpreendido quando encontrei algumas dessas pessoas trajadas de astronauta, com calções de lycra, sweat-shirts e garrafinha de água na mão, a marchar furiosamente pela marginal aos pares e aos trios... com o espanto demorei a perceber que estavam a praticar o footing porque, dizem os médicos, é uma actividade desportiva muito benéfica para a saúde e muito eficaz na redução do risco de doenças cardio-vasculares. Apeteceu-me gritar: Vão-se Footing, pá! Passam o dia sentados no escritório ou no café, para onde vão sentados no carro, e ao fim da tarde vão suar que nem umas bestas, a praticar o footing!!!

Como urbanista, considero esta perspectiva da actividade física perversa e perigosa para as nossas cidades... pessoalmente acho-a completamente idiota e só encontro explicação para ela no domínio da psicanálise.


O perigo da amnésia ou Tal como algumas pessoas já não concebem a vida sem telemóvel:


Se entendemos a locomoção humana, o andar a pé, como uma coisa do domínio do desporto estamos, desde logo, a renegar uma adaptação natural conseguida ao longo de milhões de anos de evolução, que nos permite gastar menos um terço da energia que um quadrúpede, por unidade de distância percorrida, e 15 vezes menos que um automóvel!

Suponhamos, por absurdo, que no futuro o andar a pé “ascende” à categoria de desporto. Numa cidade como Lisboa, onde os passeios já são barbaramente invadidos por automóveis, a solução “natural” seria convertê-los em estacionamento e substituí-los por modernas pistas de footing ao longo das marginais ou dos parques – ainda mais modernas que as actualmente existentes no Estoril ou Algés. Seria o fim da cidade tal como descrita por Jane Jacobs ou Manuel Leal da Costa Lobo, e a concretização tardia do delírio Modernista de Le Corbusier, num momento em que a carta de Atenas já não passa de uma curiosidade histórica, comprovadamente descabida para servir o desenho de habitats humanos.

Encontro claramente um paralelismo entre os astronautas do pedal e os astronautas do footing. Para muitas pessoas o facto de eu chegar ao trabalho de bicicleta faz de mim um desportista... e qualquer dia acontecerá o mesmo a quem chegar a pé?


A necessária inversão da perspectiva:


Num Mundo acelerado, em que o espaço e o tempo são recursos cada vez mais escassos, encontramos na multifuncionalidade dos espaços e do tempo soluções muito interessantes. Para dar um exemplo: ao contrário de algumas pessoas que aceleram (e travam... e voltam a acelerar e a travar) as suas viaturas de casa para o trabalho, do trabalho para o ginásio (onde praticam o footing em passadeiras e o ciclismo dá pelo nome de RPM) e do ginásio para casa, eu, na minha bicicleta faço o exercício do ginásio, de casa para o trabalho, do trabalho para a mercearia, da mercearia para casa. Não o faço pelo incentivo do Sr. António Costa mas porque assim poupo tempo, poupo espaço e, mais importante que tudo, poupo dinheiro (além do gozo que me dá passar por entre os carros na Av. De Roma na hora de ponta)... e assim o tenho feito desde há 5 anos para cá. Teria sido uma ideia genial se não fosse tão óbvia e estaria rico se, à semelhança da Lycra, esta descoberta fosse patenteável.

Um exemplo mais comum pode ser encontrado no espaço do WC e no tempo de enviar um fax onde muita gente aproveita simultaneamente para pôr a leitura em dia. Le Corbusier diria: até leria na casa de banho se não preferisse a biblioteca (tal como FJV prefere o paredão do Estoril), Hitler proibiria a leitura no WC (tal como proibiu a circulação de bicicletas fora das ciclovias, que por sinal foram inventadas pelo III Reich como forma de abrir as ruas ao Volksvagen). E assim se perpetua o despautério Modernista, que despreza a história e reinventa a pólvora para mais tarde perceber que a solução original era melhor.

Por trabalhar em planeamento urbano tenho que considerar as realidades emergentes e tentar antecipar as tendências futuras, a intuição diz-me que mais cedo ou mais tarde vamos ser obrigados a mudar os nossos hábitos de mobilidade. A questão é se temos a coragem de defender a mudança necessária e o estômago para aguentar comentários de “velhos do Restelo”, ou se nos resignamos a ser confortáveis cidadãos dum País que vai a reboque e só muda quando já não tem alternativa. Nunca tive dúvidas que a política exige estômago mas fico contente por ver algumas demonstrações de coragem.



Duarte Sobral